Não me apraz estudar literatura

(ficarão horrorizados, alguns 😱)

Não me apraz estudar literatura, eu gosto apenas de lê-la. Sempre achei de uma arrogância sem par os professores de literatura tentarem decifrar o que um ser humano, criatura tão complexa e multi-facetada, quis dizer com isso ou aquilo em sua obra, especialmente os que viveram em épocas outras. Não acredito. Kurt Vonnegut teve uma experiência super engraçada ao fazer, incognito, um teste sobre si mesmo em uma aula e ter tirado uma nota baixíssima, mas também não sei se é fato, essa história. Como alguém pode querer decifrar o que pensava Shakespeare ou Machado de Assis? Ambos escreveram sobre os sentimentos humanos mais universais, imprimiram uma cadência e precisão nos seus escritos que os tornaram esses gigantes, mas eram homens com mil pensamentos e dúvidas e amores e diarréias e tesão e fome e enjoo de vizinhos chatos, e também ambos tinham um senso de humor fino e inquebrantável. Vai que incluiram isso ou aquilo para nos fazer troça. No caso do primeiro, que escrevia para ganhar a vida no teatro dele, deve ter tido também muita pressa ao escrever as peças para encenar, o que não diminui sua genialidade. Mas não acredito que os professores e pesquisadores saibam exatamente, com certeza, o que eles queriam dizer. Eu sei, eu sei, o pensamento crítico, a análise da construção literária e todos os outros tópicos, mas não tenho muito saco. Prefiro ouvir sobre suas vidas, as dos autores, e suas aventuras para tentar adivinhar, nas obras, suas motivações. É bem mais divertido.

Também não cito ninguém porque não me lembro de citações de ninguém, nem de mim mesma. E nem do que comi ontem, sem me concentrar. Não ando por aí distribuindo sentenças alheias com aspas de enfeite como se me pertencessem, nada disso! Podem ficar lá no livro, relaxadas, que se eu precisar eu busco. Sou boa de encontrar o que preciso rapidinho ou ler a coisa certa na hora certa. Os livros sempre se revelam a mim.

A literatura, porém, vive em mim e vivo por ela. Ahh, as sentenças caprichadas e potentes, as tiradas brilhantes, as mensagens inebriantes e o conhecimento que se acumula, mesmo que não tenha fim. As emoções presas no papel que saem livres cada vez que alguém as lê, para depois voltarem ao silêncio das páginas quando fechadas de volta. Por isso os livros precisam circular, precisam ser lidos: para liberar as palavras e as emoções ali trancafiadas, tadinhas. A literatura vale por si só, traz um mundo e fica para sempre embebida em quem sou, como vejo o mundo, como percebo meus pares, como registro meus pensamentos. Até penso com poesia, se deixar.

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